Atentado ao bom gosto

Empresa de publicidade infesta a estância com painéis publicitários e, contrariamente à tendência mundial, polui nosso precioso  e único visual.

 

O modo escancarado como grandes companhias decidiram exibir suas marcas na temporada 2008, vem arrancando críticas inflamadas de líderes do empresariado local. Até o presidente da AME Campos – entidade que promove eventos culturais, esportivos e aglutina pessoas que freqüentam a cidade há anos –, Paulo Bilyk, condenou o que ele qualifica de excesso na exposição publicitária, que atenta contra a economia local e a qualidade que o turista espera da cidade: limpa, silenciosa, confortável e segura. “Essa qualidade está no centro da nossa sobrevivência. É o nosso ganha-pão”, disse.

     Bilyk e os empresários entrevistados nessa reportagem foram unânimes em elogiar a Lei Cidade Limpa, que baniu os outdoors em São Paulo. Em Campos, existem painéis publicitários no portal, ao longo do eixo viário principal e no Capivari. Em volta do riozinho na frente do colégio Nicola Padula, há 180 painéis anunciando carros de uma montadora coreana. Também do Jaguaribe ao Capivari, a reportagem contou 175 painéis da Vivo pendurados nos postes. Aprovado em maio de 2007, o zoneamento da cidade (Lei de Uso do Solo) diz que os postes não podem abrigar painéis desse tipo (artigo 60). Os 20 relógios digitais presentes do portal ao trevo de acesso ao horto, ora anunciam um frigorífico, ora um anti-gripal, ora uma operadora de celular. Somados às demais peças publicitárias, o número passa de 460. Essa contagem ficaria muito maior, se nela estivessem  incluídos os logotipos que se sobrepõe às placas de rua e a parte superior dos totens de sinalização, que juntas somam mais de 600. Portanto, só no eixo principal, existem mais de 1000 suportes do tipo placas, painéis, outdoors e banners.

      A publicidade ao ar livre é gerenciada pela All Space, do grupo Kallas de São Paulo, vencedora da concorrência pública, e cabe a ela definir a quantidade e, dentro da área permitida pela legislação, o “mobiliário urbano” para receber as peças publicitárias. Para o gerente da All Space, Tsuneo Kussima, os painéis não estão poluindo o visual da cidade.

 

 Palco para a Propaganda

     De acordo com Donizete Salvador (Cantina Itália), “a paisagem bonita de Campos está se tornando um palco para a propaganda”. Para ele, a cidade entrou numa rota contrária ao que ocorreu em São Paulo, onde a população apoiou a retirada dos outdoors. Ele lembra que 90% dos turistas que se hospedam na estância procedem da capital. Donizete ressalta que o turista percebe os excessos. “É a nossa imagem que está em jogo”, diz.

     Conforme Horácio Padovan (Meias Inverness), o freqüentador tradicional de Campos se distingue sobretudo pelo bom gosto. “Não é qualquer um”. “São pessoas que querem ver o que Campos têm de melhor: Ar puro, verde, a paisagem, o sossego”, salienta. “Todo mundo sabe o que é feio e bonito e está havendo um exagero”, destaca. Ele afirma que não é contra a publicidade, desde que feita de forma discreta. 

     Edgard Bittencourt (Natureza Maluca) se queixa não só dos painéis, mas principalmente das estruturas armadas sobre as avenidas. “Isso prejudica a paisagem, vai contra o espírito da cidade, afeta nossa economia”, argumenta. Em seguida pergunta: “Como podem as empresas do nível e da grandeza dessas que vem para cá em julho, achar que é bom se comunicar, fazendo a poluição visual se sobrepor à natureza?”. Formado em arquitetura pela USP, Edgard assinala que comunicação visual se faz com delicadeza e com design. “Além de poluírem visualmente, os painéis sobre as avenidas são provincianos”, diz.

 

Turista frustrado

    O presidente da AME Campos, Paulo Bilyk, lembrou que mesmo sem depender do turismo, São Paulo repudiou os outdoors. No caso de Campos, ele frisa que qualquer coisa capaz de enfear o visual, frustra a expectativa do turista. “Nos orgulha o codinome Suíça Brasileira, mas nenhuma cidade da Suíça verdadeira se submete a esse nível de exposição”, afirmou. “Back-light (painel luminoso) numa cidade como a nossa é um crime”, acrescentou.

     Bilyk destacou que as imobiliárias deram exemplo ao retirar as placas de vende-se. Quem mais dá exemplo de compromisso com a cidade, segundo ele, são as empresas tradicionais de Campos que operam seus negócios há anos. “Elas fazem tudo com muito cuidado, têm outro comportamento”, afirmou. 

     Para ele a publicidade deve se pautar pela discrição e total bom gosto. “A Visa foi feliz quando, no canteiro central, colocou a plaqueta de madeira ao nível do chão. Não ficou ofensivo” A qualidade, disse, é a nossa maior moeda. “Por isso, Campos do Jordão não rima com poluição”, destacou.

                            

"Poluição visual é uma questão de gosto"

     O gerente da All Space, Tsuneo Kussima, não acha que Campos esteja visualmente poluída. Conforme explicou, esse é um julgamento subjetivo, que depende de cada pessoa. “O que há é o mobiliário urbano, no qual estão inseridos os painéis sobre a avenida, e que a prefeitura poderá usar ao longo do ano, para divulgar mensagens institucionais”, disse.

     Ele realçou que várias cidades européias usam publicidade na rua. Lembrado que uma campanha em Barcelona (“Barcelona, posa´t guapa” – ponha-se bela) inspirou a Lei Cidade Limpa em São Paulo, o gerente informou que numa esquina da cidade espanhola, ainda permanecem vários anúncios externos.

     Acerca dos 180 painéis à beira do canal atrás da igreja São Benedito, Tsuneo esclareceu que a distribuidora dos carros ali anunciados, financiou o muro de dormentes. Em troca foi permitido a ela fixar os painéis. “Quando a temporada acabar, eles serão retirados”, afirmou.

     Quanto às críticas de Edgard Bittencourt  (Natureza Maluca) aos painéis publicitários sobre as avenidas, Tsuneo assinalou que não poderia opinar sobre isso. “Como arquiteto ele vai dizer que é feio. Outros vão achar bonito. É uma questão de gosto”, frisou.

     A Lei de Uso do Solo (zoneamento) em seu artigo 60, estabelece que “os outdoor só serão permitidos em terrenos não ocupados, postos de gasolina, estacionamento ou sobre tapumes”.

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